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Petróleo em ebulição: tensão global reacende o protagonismo dos biocombustíveis

DE OLHO NO BIODISEL

As tensões geopolíticas na semana colocaram o petróleo novamente no centro da dinâmica global de preços, sustentando um ambiente de alta volatilidade que se transmite diretamente aos óleos vegetais. O avanço regulatório em direção ao B20 reforça expectativas de crescimento da demanda por biodiesel, em um cenário em que o diesel segue pressionado por preços elevados e intervenções governamentais — consolidando a leitura de que energia, geopolítica e biocombustíveis estão cada vez mais interligados e determinantes para o mercado.

Geopolítica no radar: petróleo dita o ritmo (e o nervosismo) do mercado

O Brent acumulou valorização próxima de 13% na semana, rompendo o patamar de US$ 105/barril antes de encerrar em US$ 99,13. O WTI seguiu trajetória semelhante, fechando em US$ 94,40. Mais do que os níveis de preço, chama atenção a intensidade das oscilações.

Relatos de ataques a embarcações e apreensões no Estreito de Ormuz — ponto nevrálgico para o fluxo global — reforçaram o prêmio de risco. Ainda que sinais pontuais de avanço diplomático tenham limitado movimentos mais extremos, o mercado segue sensível.

Óleo de soja ganha força: energia e política industrial sustentam demanda

Em meio a esse cenário, o óleo de soja consolidou uma trajetória de valorização consistente, operando próximo de US¢ 71–72/lb. O movimento não é apenas reflexo do petróleo — há um vetor estruturante por trás: fortalecimento da demanda doméstica nos Estados Unidos, impulsionada pelas metas agressivas de biocombustíveis.

Os créditos de descarbonização (RINs) atingiram maiores níveis desde 2023 – 194 centavos por crédito – com avanço do heating oil e a recomposição do oil share. Já as exportações foram incipientes: 1.500 toneladas vendidas na semana e compromissos acumulados de 364 mil toneladas (-64,4% a/a).

O contrato maio/2026 do óleo de soja negociado na Bolsa de Chicago fechou a semana a 71,33 cents/lb (alta de 5,04% em relação à anterior), com registro de queda do prêmio local, fechando em 18,0 cents/lb negativo.  Assim, o óleo de soja FOB Paranaguá subiu 4,15%, a US$1.176ton, conforme o quadro a seguir:

Óleo de palma: entre a fraqueza momentânea e a força estrutural

O óleo de palma também reagiu, com valorização ao longo da semana após duas quedas consecutivas:
Preços entre USD 1.155–1.171/ton
Expectativa de fechamento semanal positivo de cerca de 3,2%

“Ainda assim, o cenário exige leitura cuidadosa. No curto prazo, a demanda internacional segue enfraquecida, especialmente em mercados-chave como Índia e China, enquanto a produção deve ganhar tração no segundo trimestre. Esse desequilíbrio limita movimentos mais expressivos”, analisa Filipe Cunha, head comercial da SCA Brasil Biodiesel.

A implementação do B50 na Indonésia e o avanço do mandato na Malásia (de B10 para B15) devem elevar significativamente o consumo doméstico: incremento de cerca de 2 milhões de toneladas e de mais de 300 mil toneladas, respectivamente. A consequência é clara: menos excedente exportável e um suporte consistente aos preços no médio prazo.

Biodiesel no Brasil: avanço regulatório reacende expectativas

Levantamento da SCA Brasil aponta que o mercado spot apresentou movimentação bem reduzida, em função do foco do mercado na contratação dos volumes para o terceiro bimestre do ano:
Volume: 1.085 m³ (-54,8%)
Preço médio: R$ 5.593/m³ (+2,0%)

Entre 13 e 19 de abril, o preço médio do biodiesel negociado entre usinas e distribuidores ficou em R$ 5.230,55, alta de 0,49% em relação ao valor médio da semana anterior. O Nordeste apresentou maior redução (-1,53%), enquanto o Sudeste, a maior valorização (1,86%). No ano, o mercado acumula redução de 11,69%. Os dados são da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

O início dos testes para ampliação da mistura obrigatória de biodiesel de B15 para B20 marca um avanço relevante no campo regulatório. Os ensaios, que podem se estender por até oito meses, reduzem incertezas e recolocam o tema da expansão da demanda doméstica no centro do debate.

Ainda que a implementação não seja imediata, o recado é claro: a trajetória aponta para maior consumo de biodiesel — e, consequentemente, de óleo de soja.

Diesel sob pressão: intervenção e realidade caminham juntas

O mercado de diesel no Brasil segue em ajuste, com o governo atuando para conter os impactos da alta internacional. A prorrogação do subsídio ao diesel importado evidencia esse esforço, assim como a redução das importações programadas para maio.

Ainda assim, há um limite para a intervenção. Os preços seguem elevados — o diesel S10 saltou de R$ 3,36/litro em fevereiro para R$ 6,40/litro em abril. Trata-se de um choque expressivo, diretamente ligado às tensões no Golfo.

As importações programadas para maio caíram para 747 mil m³, frente a 1,544 milhão de m³ em abril. Os estoques confortáveis superiores a 2 milhões de m³ e consumo mensal acima de 4 milhões de m³ ajudam a mitigar riscos de abastecimento, mas não eliminam o desafio central: o Brasil continua exposto à volatilidade externa.

O que esperar: volatilidade não é exceção, é o novo padrão

Para Filipe Cunha, especialista do setor, o mercado entra na próxima semana com um elemento dominante: incerteza, devido aos fatores:
Evolução das negociações EUA x Irã
Fluxo efetivo no Estreito de Ormuz
Continuidade da demanda por óleo de soja nos EUA
Comportamento dos créditos de biocombustíveis
Políticas de biodiesel no Sudeste Asiático

Tags: SCA Brasil

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