Entrevista com Afonso Aragão, presidente do Sindicato dos Trabalhadores no Transporte Terrestre de Rondonópolis e Região

Entrevista com Afonso Aragão, presidente do Sindicato dos Trabalhadores no Transporte Terrestre de Rondonópolis e Região

Rondonópolis ocupa posição estratégica no transporte de cargas brasileiro e, por isso, enfrenta desafios que vão muito além da rotina dos caminhoneiros: infraestrutura, segurança viária, fiscalização, tecnologia, qualificação profissional e segurança jurídica.

Em um momento de mudanças importantes no marco regulatório, como a universalização do CIOT e o fortalecimento das normas de frete, o debate sobre políticas públicas para o setor torna-se ainda mais urgente.

Nesta entrevista, Afonso Aragão, presidente do Sindicato dos Trabalhadores no Transporte Terrestre de Rondonópolis e Região (STTRR) e vereador (Republicanos), apresenta uma visão abrangente sobre as necessidades do transporte rodoviário de cargas no município, detalhando prioridades, propostas e caminhos para fortalecer um dos pilares econômicos da região.

Entre infraestrutura, fiscalização, digitalização, pontos de parada e diálogo institucional, ele defende que o desenvolvimento logístico só será possível com planejamento, respeito aos profissionais e participação ativa do poder público.

Como o senhor avalia o atual marco regulatório do frete e quais ajustes considera essenciais para garantir segurança jurídica ao setor?

O marco regulatório do transporte rodoviário de cargas avançou, especialmente com o fortalecimento do piso mínimo do frete, do vale-pedágio obrigatório, do pagamento eletrônico e da universalização do CIOT. Desde 24 de maio de 2026, o CIOT passou a ser obrigatório para todas as operações de transporte rodoviário remunerado de cargas, independentemente de o contratado ser transportador autônomo, empresa ou cooperativa. (Serviços e Informações do Brasil)

Entretanto, ainda precisamos garantir que as normas funcionem na prática. Não adianta termos uma legislação avançada se o transportador continuar sendo obrigado a aceitar valores abaixo do custo, a suportar descontos indevidos, a esperar horas para carregar ou descarregar sem remuneração e a enfrentar dificuldades para cobrar seus direitos.

Como presidente do STTRR e vereador, defendo regras claras, estabilidade regulatória, fiscalização efetiva, transparência na composição do frete e mecanismos rápidos de denúncia e de responsabilização de quem descumpre a legislação. Também considero essencial que qualquer mudança normativa seja construída ouvindo caminhoneiros, trabalhadores, transportadores, embarcadores e entidades representativas.

A segurança jurídica deve valer para todos, mas principalmente para quem está na ponta, assumindo os custos e os riscos da operação.

Quais são as prioridades do município em relação à manutenção e à ampliação da infraestrutura viária usada pelo transporte de cargas?

Rondonópolis é um dos principais entroncamentos logísticos do Brasil. Por isso, nossas prioridades devem começar pela recuperação e pela manutenção permanente das vias dos distritos industriais, dos acessos ao terminal intermodal, das rotas que ligam as empresas às BRs 163 e 364 e das ruas utilizadas diariamente por veículos pesados.

Não podemos continuar trabalhando apenas com operações emergenciais. Defendo um planejamento permanente, com mapeamento das rotas de maior fluxo, cronograma público de manutenção, drenagem adequada, pavimentação resistente ao tráfego pesado, iluminação, sinalização e construção de calçadas seguras para os trabalhadores.

Também é fundamental buscar parcerias entre o Município, o Governo do Estado, o Governo Federal, o DNIT, as concessionárias e a iniciativa privada. O transporte gera emprego, renda e arrecadação, mas precisa receber de volta investimentos proporcionais à sua importância econômica.

De que forma o município pode colaborar com a fiscalização do cumprimento das normas de contratação e de registro das operações de transporte, como o CIOT?

A fiscalização direta do CIOT e das normas federais do transporte rodoviário de cargas é competência da ANTT e dos órgãos federais responsáveis. O Município, entretanto, pode e deve colaborar.

Essa colaboração pode ocorrer por meio de convênios, de compartilhamento de informações, de encaminhamento de denúncias, de campanhas educativas e de criação de canais municipais de orientação aos motoristas e aos transportadores.

Também defendo que o Município exija o cumprimento da legislação do transporte em suas próprias contratações, licitações e serviços terceirizados. Uma empresa que presta serviço ao poder público deve comprovar regularidade, emissão do CIOT quando aplicável, respeito ao piso mínimo, pagamento do vale-pedágio e condições dignas aos motoristas.

Com as novas regras, o CIOT passou a registrar informações como contratante, transportador, origem, destino, valor do frete e veículos utilizados, ampliando a rastreabilidade das operações. (Serviços e Informações do Brasil)

O Município não pode substituir a ANTT, mas pode ser parceiro ativo da fiscalização e não permitir que seu território seja utilizado como ambiente de irregularidade e de exploração.

Que iniciativas o senhor defende para reduzir custos logísticos e melhorar a competitividade das empresas de transporte locais?

A primeira medida é investir em infraestrutura. Buracos, congestionamentos, falta de drenagem, acessos inadequados e demora para chegar aos terminais aumentam o consumo de combustível, desgastam pneus e veículos, atrasam as entregas e elevam o custo das empresas.

Defendo a criação de rotas logísticas municipais prioritárias, a melhoria dos acessos aos distritos industriais, a sincronização da sinalização, áreas adequadas para estacionamento e a organização do fluxo de caminhões.

Também precisamos incentivar a qualificação profissional, a formação de novos motoristas das categorias D e E, a digitalização dos serviços públicos e a redução da burocracia para as empresas regulares.

Outra iniciativa importante é ampliar o diálogo com postos, oficinas, concessionárias, transportadoras, embarcadores e entidades do setor para construir programas de benefícios, capacitação e manutenção preventiva.

Reduzir o custo logístico não significa retirar direitos dos trabalhadores. Significa melhorar a infraestrutura, eliminar a burocracia desnecessária, aumentar a eficiência e combater práticas que prejudicam tanto as empresas sérias quanto os profissionais do volante.

Quais ações estão sendo discutidas para aumentar a segurança nas estradas municipais e regionais, especialmente nas rotas de alto fluxo de caminhões?

A segurança precisa ser tratada de forma integrada. Defendo melhorias na iluminação, na sinalização horizontal e vertical, na recuperação do pavimento, na limpeza das margens, na implantação de redutores e de dispositivos de segurança em pontos críticos e na fiscalização das condições das vias.

Também precisamos identificar os locais com maior número de acidentes e ocorrências, produzindo um mapa de risco das rotas utilizadas pelo transporte de cargas.

Nas rodovias estaduais e federais, o Município e a Câmara devem atuar politicamente junto ao Governo do Estado, ao DNIT, à ANTT e às concessionárias para cobrar duplicações, passarelas, retornos seguros, marginais, iluminação e manutenção.

Outra prioridade é melhorar a segurança dos trabalhadores nos deslocamentos aos distritos industriais. Muitos profissionais caminham ou utilizam motocicletas em locais sem iluminação, calçadas ou acostamento adequados.

A segurança viária não é apenas uma pauta do caminhão. É uma pauta do motorista, do trabalhador, da família e de toda a sociedade.

O município tem planos para criar ou melhorar pontos de parada, áreas de descanso e serviços essenciais para os caminhoneiros?

Essa é uma das bandeiras que defendo. Apresentei a proposta de criação de um Ponto de Parada e Descanso Municipal, o PPD Municipal, com estrutura digna e acessível aos motoristas.

A proposta é oferecer estacionamento seguro, banheiros, chuveiros, água potável, alimentação, iluminação, internet, área de convivência e condições adequadas para o cumprimento do descanso.

Também defendo a chamada Cidade do Transporte, por meio de parceria com o Sindicato Rural e de utilização estruturada do Parque de Exposições para a formação prática de motoristas, a educação para o trânsito, treinamentos e atividades relacionadas ao setor.

Rondonópolis recebe diariamente milhares de caminhões. Não podemos aceitar que os profissionais responsáveis pela movimentação da nossa economia sejam obrigados a descansar nas margens das rodovias, sem banheiro, segurança ou dignidade.

O descanso do motorista não é privilégio. É direito, saúde e prevenção de acidentes.

Como o senhor vê o papel da tecnologia e da digitalização na gestão do transporte de cargas, e quais projetos podem ser implementados localmente?

A tecnologia é fundamental para tornar o transporte mais eficiente, transparente e seguro. Sistemas digitais podem reduzir filas, organizar horários de carga e descarga, identificar gargalos, acompanhar o fluxo de caminhões e melhorar a comunicação entre empresas, motoristas e órgãos públicos.

Em âmbito local, podemos desenvolver uma plataforma integrada de informações ao transportador, com situação das vias, interdições, obras, pontos de parada, serviços disponíveis, canais de denúncia e orientações sobre a legislação.

Também defendo a criação de um sistema de agendamento para terminais, grandes empresas e pátios de triagem, evitando que o motorista permaneça horas ou dias aguardando sem estrutura.

A digitalização, entretanto, não pode ser usada apenas para aumentar o controle sobre o motorista. Ela deve servir para garantir o pagamento correto, a transparência, a redução do tempo de espera e o respeito aos direitos.

O Documento Eletrônico de Transporte, instituído pela Lei nº 14.206, busca justamente integrar informações e documentos relacionados às operações de transporte. (Presidência da República)

De que forma o gabinete do senhor tem dialogado com entidades como a ANATC para aprimorar políticas públicas voltadas ao transporte rodoviário?

Nosso gabinete está aberto ao diálogo permanente com entidades representativas, sindicatos, associações, caminhoneiros autônomos, empresas, cooperativas, embarcadores e órgãos reguladores.

Como presidente do STTRR, conheço as dificuldades vividas diariamente pelos profissionais. Como vereador, tenho a oportunidade de transformar essas demandas em indicações, projetos, audiências públicas, requerimentos e articulações institucionais.

Entidades como a ANATC possuem conhecimento técnico e experiência prática que podem contribuir para o aperfeiçoamento das políticas públicas. Quero fortalecer esse diálogo, promovendo reuniões, debates e audiências para tratar de frete, CIOT, condições de trabalho, pontos de parada, infraestrutura, segurança e qualificação.

Meu compromisso é fazer com que o gabinete funcione como uma ponte entre a categoria e o poder público. As decisões sobre o transporte não podem ser tomadas sem que se ouça quem vive do transporte.

Qual é a importância econômica do transporte de cargas para o município, e como o Legislativo pode fortalecer esse setor estratégico?

O transporte de cargas é uma das bases econômicas de Rondonópolis. Nossa localização, o terminal ferroviário, as rodovias, os distritos industriais, o agronegócio, as transportadoras e toda a rede de oficinas, postos, restaurantes, concessionárias e prestadores de serviços fazem do município um dos maiores polos logísticos do país.

O setor reúne centenas de empresas e gera milhares de empregos diretos e indiretos. Em levantamento divulgado pelo próprio Município, representantes do segmento indicaram que Rondonópolis concentrava mais de 700 empresas ligadas ao transporte de cargas. (Prefeitura de Rondonópolis)

O Legislativo pode fortalecer o setor fiscalizando o Executivo, destinando recursos, propondo leis, promovendo audiências públicas e cobrando investimentos em infraestrutura, segurança e qualificação.

Também pode garantir que o planejamento urbano considere o transporte de cargas, evitando a ocupação desordenada das rotas logísticas e os conflitos entre áreas residenciais, industriais e corredores de veículos pesados.

Valorizar o transporte é valorizar o emprego, a arrecadação, o comércio, a indústria e o desenvolvimento de Rondonópolis.

Que mensagem o senhor gostaria de deixar aos transportadores, embarcadores e caminhoneiros sobre os desafios e as oportunidades para os próximos meses?

Minha mensagem é de união, diálogo e responsabilidade.

O setor enfrenta desafios importantes: custos elevados, preço do combustível, manutenção dos veículos, infraestrutura deficiente, falta de motoristas qualificados, insegurança jurídica e pressão sobre o valor dos fretes.

Ao mesmo tempo, Rondonópolis possui uma posição estratégica e grandes oportunidades de crescimento. Para aproveitá-las, precisamos construir uma relação mais equilibrada entre transportadores, embarcadores, empresas e trabalhadores.

O transportador precisa ter segurança para investir. O embarcador precisa de eficiência e previsibilidade. E o motorista precisa ser respeitado, valorizado e remunerado de forma justa.

Como presidente do STTRR e vereador, continuarei defendendo o diálogo, mas também serei firme na cobrança pelo cumprimento da legislação e pelo respeito à dignidade dos profissionais.

O transporte não pode ser lembrado somente quando a carga atrasa ou quando o abastecimento corre risco. Ele precisa ser reconhecido diariamente como um setor essencial para o desenvolvimento do Brasil.

Podem contar com nosso mandato e com o sindicato para trabalhar, fiscalizar, propor soluções e representar quem verdadeiramente move o país.

Sem motorista, o Brasil para. Com união, respeito e planejamento, o transporte acelera.

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