O debate sobre o fim da escala 6×1 voltou ao centro das discussões nacionais após o envio ao Congresso, em abril de 2026, do projeto de lei que reduz a jornada semanal para 40 horas sem diminuição salarial. A proposta, defendida pelo governo como uma modernização necessária das relações de trabalho, acendeu um alerta no setor de transportes, que opera de forma contínua e depende de mão de obra altamente especializada.
Estudos recentes da Confederação Nacional do Transporte (CNT) indicam que a mudança pode elevar os custos operacionais em mais de R$ 12 bilhões ao longo dos próximos anos, caso não haja aumento de produtividade. O levantamento, atualizado em maio de 2026 e elaborado em parceria com os economistas José Pastore e Paulo Rabello de Castro, aponta que 92,5% dos trabalhadores do setor já atuam no limite legal da jornada atual, o que tornaria inevitável a contratação de cerca de 240 mil novos profissionais para manter o nível de serviço.
“Acreditamos que o fim da escala 6×1 encarecerá o transporte rodoviário de cargas, setor que já enfrenta déficit de motoristas. O impacto será preocupante nas operações e poderá comprometer principalmente as exportações brasileiras nos períodos de safra. Defendemos estudos mais profundos sobre os prováveis impactos negativos em setores específicos, especialmente no nosso”, afirma Carley Welter, diretor de Relações Institucionais da ANATC.
O problema é que o setor já enfrenta uma escassez estrutural de mão de obra. Segundo a CNT, 65,1% das empresas relatam dificuldade para contratar motoristas, e quase metade das transportadoras de cargas mantém vagas abertas há meses, muitas delas com cinco ou mais posições não preenchidas. No transporte de passageiros, a situação é ainda mais crítica, com 53,4% das empresas relatando falta de profissionais qualificados.
A pressão financeira recai especialmente sobre pequenos negócios, que representam 90,5% das empresas do setor e operam com margens reduzidas. Hoje, quase metade do valor adicionado bruto é destinada ao pagamento de pessoal, enquanto o excedente operacional médio não ultrapassa 21% da receita. Com a redução da jornada, o valor da hora trabalhada subiria automaticamente em 10%, ampliando a folha de pagamento em 8,6% e comprimindo ainda mais a rentabilidade das operações.
A CNT alerta que esse cenário pode levar ao repasse de custos ao frete, à redução da oferta de serviços e até ao fechamento de empresas de menor porte. Há também o risco de aumento da informalidade, já que o custo total da contratação formal, equivalente a 102,43% do salário nominal, pode se tornar inviável para parte do mercado. Embora o setor seja hoje 92,1% formalizado, especialistas afirmam que mudanças bruscas na estrutura de custos podem estimular práticas irregulares, especialmente em regiões onde a fiscalização é limitada.
Entidades empresariais defendem que qualquer mudança na legislação seja acompanhada de políticas de incentivo à produtividade e programas de formação profissional. O governo, por sua vez, argumenta que a redução da jornada é uma tendência internacional e que o bem-estar dos trabalhadores deve ser considerado parte do ganho de eficiência.
O relator da proposta na Câmara, deputado Orlando Silva, apresentou em 23 de maio de 2026 uma sugestão que altera diretamente a organização das folgas. Segundo ele, mesmo com o fim da escala 6×1, um dos dias de descanso semanal deverá obrigatoriamente ocorrer no domingo. A medida, segundo o parlamentar, busca preservar a convivência familiar e alinhar a legislação brasileira a práticas adotadas em outros países.
A proposta, porém, gera novas preocupações no setor de transportes, que opera de forma contínua e depende de escalas flexíveis para atender demandas de carga e períodos de safra. Para entidades como a ANATC, a obrigatoriedade de folga dominical pode ampliar ainda mais a necessidade de contratações e pressionar custos operacionais.
As empresas do setor aguardam definições para planejar o segundo semestre, em um ambiente marcado por incertezas regulatórias e pressão crescente por eficiência operacional.

