Decisão judicial nos EUA anima, mas especialistas ponderam que ganhos podem não se concretizar diante de novas medidas; entenda.
O fim do tarifaço do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode gerar até 2 bilhões de dólares ao ano em ganhos de exportação para a balança comercial brasileira, estimam analistas ouvidos nesta sexta-feira, 20. Mais cedo, a Suprema Corte dos Estados Unidos considerou ilegal o aumento de tarifas promovido pelo presidente Donald Trump contra produtos importados de diversos países. Ainda assim, o desfecho da história é incerto e essa quantia pode não se concretizar, visto que Trump anunciou que aplicaria uma tarifa global de 10% usando outras leis para burlar a decisão da Justiça americana.
André Valério, economista sênior do Inter, explica que o Brasil, juntamente com China e Canadá, deve ser um dos países mais beneficiados com a decisão, já que a tarifa aplicada ao país é uma das mais distantes da tarifa-base de 15%. Ele reforça que, mesmo após recuos parciais do governo americano em relação ao Brasil, mais da metade das exportações brasileiras para os Estados Unidos ainda estava sujeita à tarifa de 50%.
“Agora, a tarifa deve recuar para 15%, beneficiando principalmente a indústria de transformação, que tem um mercado americano relevante e ainda estava sujeita à alíquota mais elevada”, argumenta André Valério. Entretanto, ele ressalta que as tarifas declaradas ilegais são aquelas anunciadas no dia 2 de abril. As tarifas sobre aço e alumínio continuam em vigor e seguem afetando as exportações brasileiras para os EUA.
Como isso pode beneficiar o Brasil em 2026?
De modo geral, os analistas apontam que é difícil estimar os ganhos que o Brasil poderia ter em 2026. Isso porque outros fatores entram nos cálculos para se chegar a uma projeção realista, como atividade econômica, capacidade produtiva e volume de exportações. Por isso, os especialistas salientam que o número apresentado é apenas uma estimativa e pode não refletir o desempenho efetivo das vendas brasileiras aos Estados Unidos ao longo de 2026.
Carlos Pinto, diretor do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), prevê algum impacto sobre a economia local, mesmo que a decisão não elimine as tarifas sobre aço e alumínio. “A flexibilização de parte relevante do tarifaço poderia, em tese, permitir uma recomposição de receitas externas entre 1,5 bilhão e 2 bilhões de dólares ao ano, dependendo do desenho final das medidas a serem revistas”, afirma Pinto. Em 2025, as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 6,6%, o equivalente a 2,6 bilhões de dólares, após as tarifas impostas por Trump.
Andressa Gomes, coordenadora do MBA em Gestão Tributária da FIPECAFI, reforça que grandes empresas exportadoras de alimentos, bens industriais e celulose seriam positivamente impactadas caso o tarifaço de fato seja revertido. Todavia, ela pondera que a melhora pode não ser imediata. “Em um mercado globalizado, os efeitos concretos não são corrigidos ou minimizados de forma automática após uma decisão da Suprema Corte dos EUA”, explica.
O TARIFAÇO AINDA NÃO ACABOU
Ainda assim, os analistas destacam um ponto central: a questão está longe de um desfecho definitivo. A decisão da Suprema Corte pode impedir que Trump aplique tarifas com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA). No entanto, o presidente americano indicou que poderá recorrer a outros dispositivos legais.
Em entrevista coletiva nesta sexta-feira, 20, Trump afirmou que assinará um decreto ainda hoje, aplicando uma tarifa global de 10% com base na Seção 122. “Podemos usar outras leis para impor tarifas, que foram confirmadas e são permitidas”, disse o presidente, ao citar também a Seção 232, que autoriza a taxação sobre o aço.
Sendo assim, os potenciais 2 bilhões de dólares anuais em ganhos de exportação para a balança comercial brasileira ainda são incertos. O cenário dependerá dos próximos passos da política comercial americana, especialmente após Trump sinalizar a possibilidade de novas tarifas para contornar a decisão da Suprema Corte.
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