Na semana passada, o setor de transporte rodoviário de cargas no Brasil apresentou sinais contraditórios: enquanto dados apontam crescimento no volume transportado e novos investimentos em infraestrutura, persistem entraves estruturais que ameaçam a eficiência logística, especialmente no escoamento da safra.
De acordo com levantamento da ANATC, o agronegócio continua sendo o motor da demanda por fretes rodoviários. Em 2024, o volume transportado pelo setor cresceu 5,3%, com destaque para soja e fertilizantes, que responderam por 45% da movimentação registrada na plataforma Frete.com.
Contudo, a transição para o novo sistema de pedágio eletrônico tem causado preocupações. Transportadores relataram risco de “colapso logístico” devido à exigência de rápida adaptação às etiquetas eletrônicas, o que pode comprometer a fluidez do escoamento da colheita de grãos, especialmente da soja.
A questão ambiental também esteve em pauta. Apesar de as vendas de caminhões novos terem avançado 17,4% neste ano, a adesão a veículos elétricos ou movidos a combustíveis alternativos segue modesta, conforme estudo do Instituto Ilos. Especialistas apontam que a descarbonização da frota ainda depende de incentivos mais concretos e infraestrutura de suporte.
No campo dos investimentos, o governo do Paraná anunciou concessões rodoviárias com aportes estimados em R$ 100 bilhões, além do lançamento de um portal de dados que visa melhorar o planejamento estratégico do modal rodoviário, promovendo mais transparência e eficiência.
Entretanto, o peso dos custos logísticos continua sendo um fator crítico. Estudo da SH Consultoria estima que o modal rodoviário acumula gastos anuais de R$ 1,3 trilhão, afetando diretamente a competitividade do agronegócio e evidenciando deficiências estruturais do sistema.
Um dos exemplos mais expressivos da sobrecarga foi registrado na BR-364, próximo ao porto de Porto Velho (RO). Com a concentração da colheita da safra 2024-25, filas de até 1.500 caminhões por dia foram observadas. A consequência direta foi o aumento do frete em uma das principais rotas da região, que saltou de R$ 185 por tonelada para R$ 235, segundo o portal NeoFeed.
Apesar dos desafios, os números gerais do primeiro semestre de 2024 são positivos: o volume de cargas transportadas pelas rodovias cresceu 4,5%, impulsionado pelos segmentos de grãos, celulose e refeições industrializadas. No mesmo período, foram investidos R$ 6,5 bilhões em infraestrutura, segundo dados da Fetransul.
Por fim, uma notícia que pode aliviar a pressão sobre o setor rodoviário veio do Tribunal de Contas da União, que autorizou um acordo de R$ 17 bilhões entre o Governo Federal e a mineradora Vale. O montante será destinado a projetos estratégicos de ferrovias, o que pode diversificar a matriz de transporte e reduzir a dependência excessiva do modal rodoviário.

