AVANÇO NA MOBILIDADE URBANA DEPENDE DE GOVERNANÇA, INVESTIMENTOS E NOVO MODELO DE TARIFA - ANATC - Associação Nacional das Empresas de Transporte de Cargas

AVANÇO NA MOBILIDADE URBANA DEPENDE DE GOVERNANÇA, INVESTIMENTOS E NOVO MODELO DE TARIFA

Oferecer menores tarifas deve ser o foco do setor de transporte público para impulsionar a busca de usuários pelos serviços, que recuou de forma expressiva nos últimos anos. A redução sozinha, contudo, não será suficiente para trazer os passageiros que passaram a usar meios de transporte individuais: será preciso melhorar a qualidade do serviço, com mais investimentos em sistemas de alta capacidade e melhor governança para tornar os transportes mais eficientes.

O diagnóstico é o que apareceu no Conexão ANPTrilhos 2026, um dia dedicado a reflexões sobre como transformar o transporte público no país. O evento aconteceu na quarta-feira (26), em Brasília, foi promovido pela ANPTrilhos (Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos) e levou renomados especialistas e as maiores autoridades no país para encontrar caminhos para a recuperação do setor.

Em discurso na abertura do encontro, o ministro das Cidades, Vladimir Lima, defendeu o desenvolvimento do setor de transportes da mesma forma que o setor de habitação social avançou, com o programa Minha Casa, Minha Vida. “Acho que temos que fazer algo similar. Precisamos ter discussões perenes, consistentes para virar a chavinha do transporte público coletivo”, destacou o ministro.

Além da cerimônia de abertura, o dia de debates trouxe ainda o presidente da TML (Transportes Metropolitanos de Lisboa), Carlos Humberto de Carvalho, que contou detalhes sobre a bem-sucedida experiência de reorganização do transporte nas 18 cidades que compõem a região metropolitana da capital portuguesa (reportagem sobre o tema neste link).

Os representantes de três candidaturas à Presidência da República – Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Ronaldo Caiado (PSD) – também apresentaram as propostas para o setor. No evento, foi lançada ainda a campanha No Trilho Certo, iniciativa que terá uma série de ações para colocar a mobilidade urbana sobre trilhos no centro das discussões políticas e eleitorais, levando a mensagem sobre a necessidade de reduzir tarifas, ampliar fontes de financiamento e acelerar a expansão da infraestrutura.

A transmissão do evento pode ser vista neste link. A Agência iNFRA participou da cobertura do evento e promoveu um estúdio de entrevistas, que poderão ser vistas ao longo dos próximos dias no canal do YouTube, disponível neste link.

Queda de passageiros
Estudo da CNT (Confederação Nacional do Transporte) mostrou redução do uso de transporte coletivo de 50% em 2017 para 32% em 2024. Apesar da desaceleração ser resultado dos novos costumes da população decorrentes da pandemia de Covid-19, a carência de políticas públicas vem contribuindo fortemente para a piora, avalia a diretora-presidente da ANPTrilhos, Ana Patrizia Lira.

Para ela, os incentivos para que as passagens possam estar num nível adequado à capacidade de pagamento da população devem ter a ajuda financeira da União, uma vez que os subsídios dos estados e municípios estão no limite. A melhoria do financiamento do setor também pode ser apoiada por uma melhor gestão do serviço, especialmente quando há acordo entre estados e municípios, gerando integração entre linhas de ônibus com trilho.

Hoje há forte sobreposição dos modais, ela explicou, levando a desperdício de recursos, algo já constado no recente ENMU (Estudo Nacional de Mobildide Urbana), realizado pelo Ministério das Cidades e pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). “Precisamos organizar o sistema, trazer maior capilaridade para atingir o maior número de pessoas e entregar o melhor serviço ao passageiro”, disse a presidente da associação em entrevista a jornalistas.

Financiamento
Presente à mesa de abertura, o diretor de Relações Institucionais da CNT, Valter de Souza, lembrou que o principal pilar para a concretização da sustentabilidade do setor de transporte é a regularização das fontes de financiamento.

Segundo ele, essa regularização vai garantir segurança jurídica para que o setor empresarial tenha confiança de que os recursos serão destinados adequadamente. “Temos que nos unir e trabalhar no sentido de garantir mais investimentos para realizar os programas. Temos planos, é só questão de fazermos planejamento”, destacou o diretor da CNT.

Na avaliação de Luciene Machado, superintendente do BNDES, sem a entrada de investimento, o setor fica preso num ciclo vicioso, no qual a falta de recurso limita a melhora dos serviços, o que desmotiva os usuários a utilizarem o transporte e que, por consequência, encolhe o potencial de arrecadação de capital.

Ela trouxe dados do ENMU mostrando que 43% dos planos diretores das principais cidades não foram renovados ou revisados. “São peças que hoje têm pouca ou nenhuma funcionalidade”, afirmou.

A junção de “planejamento, financiamento e regulação que funcione” será chave para a transformação, de acordo com o presidente do Conselho de Administração da ANPTrilhos, Julio Castiglioni, que também é diretor-presidente do Metrô de São Paulo. “É necessário fazer uma coordenação entre os vários atores porque uma cidade funcional não ocorre do acaso”, disse no painel de abertura do evento.

Conectividade
Para o diretor-presidente da Infra S.A., Jorge Bastos, melhores condições no transporte serão garantidas a partir da interoperabilidade entre os diferentes modais e ligação direta entre as capitais do país. Ele deu o exemplo do deslocamento entre Natal (RN) e Recife (PE), cuja ligação ferroviária direta é inexistente, apesar da proximidade das capitais.

A estatal sob comando de Bastos e o Ministério dos Transportes estudam uma rede de trilhos que conectam as capitais nordestinas, principalmente. “Nós estamos estudando todas essas ligações [entre capitais no Nordeste], essa [Natal e Recife] vai ser a primeira, depois [vem] Recife e Maceió, Maceió e Sergipe, e Sergipe e Salvador”, afirmou Bastos em discurso na mesa de abertura. “Acho que é uma maneira de tentar melhorar o transporte sobre o território.”

Tags: Agência Infra

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