Baixa participação das ferrovias mantém custos elevados e impulsiona investimentos bilionários em novos corredores ferroviários
Mesmo diante do avanço do nearshoring, da regionalização das cadeias de suprimentos e da busca por alternativas de transporte de menor emissão de carbono, a América Latina continua fortemente dependente do transporte rodoviário de cargas.
A predominância das rodovias mantém elevados os custos logísticos, reduz a competitividade das exportações e limita a integração econômica entre os países da região, segundo estudos do Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF), da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) e da União Internacional de Ferrovias (UIC).
O cenário contrasta com o observado na América do Norte. Nos Estados Unidos, Canadá e México, o transporte ferroviário é o principal modal para cargas de longa distância, movimentando granéis, produtos industriais, automóveis e contêineres intermodais. A integração proporcionada pelo acordo comercial entre os três países (T-MEC) e pela operação da Canadian Pacific Kansas City (CPKC), primeira ferrovia a conectar as três nações sob uma única rede, fortaleceu os fluxos logísticos e ampliou a competitividade da indústria norte-americana.
Estudos da CAF mostram que mais de 80% das cargas da América Latina continuam sendo transportadas por rodovias, enquanto a participação das ferrovias permanece entre 7% e 10% da matriz regional de cargas.
O Brasil aparece como a principal exceção. Embora concentre a maior participação ferroviária da região, o país ainda está distante dos padrões observados na América do Norte. Durante o Fórum Infraestrutura, Logística e Transportes, promovido pelo LIDE na semana passada, o CEO da Loram para a América do Sul e África, Murilo Martins, afirmou que as ferrovias respondem atualmente por cerca de 22% da matriz brasileira de transporte de cargas e lembrou que a meta do governo é elevar essa participação para 30% nos próximos anos. Segundo o executivo, a expansão do modal dependerá não apenas da construção de novos trechos, mas também de investimentos permanentes em manutenção, digitalização e aumento da produtividade da infraestrutura existente.
No México, a participação ferroviária gira em torno de 14%, enquanto na Argentina permanece próxima de 5%.
Custos elevados
A baixa participação das ferrovias tem reflexos diretos sobre a competitividade da região. Estudos da CAF estimam que os custos logísticos representem entre 14% e 18% do valor dos produtos comercializados na América Latina, praticamente o dobro da média registrada nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A limitada integração ferroviária também ajuda a explicar por que o comércio entre os próprios países latino-americanos representa menos de 20% das transações da região.
Relatório da UIC aponta ainda uma série de entraves estruturais, como diferentes bitolas ferroviárias entre os países, baixa interoperabilidade das redes, trechos subutilizados e conexões insuficientes entre ferrovias, portos e centros produtores. Essa fragmentação dificulta a formação de corredores logísticos internacionais capazes de aumentar a eficiência do transporte de cargas.
Vantagens do modal
Para percursos de média e longa distância, especialmente no transporte de grandes volumes, o modal ferroviário oferece ganhos relevantes de eficiência. Estudos citados pela UIC indicam que os custos podem ser reduzidos entre 30% e 50% em corredores adequadamente estruturados. Em média, o transporte ferroviário é cerca de 40% mais econômico que o rodoviário para cargas de grande escala.
Além da redução de custos, as ferrovias transportam maiores volumes com menor consumo de combustível por tonelada-quilômetro, liberam capacidade nas rodovias e reduzem a dependência do transporte por caminhões.
Sob o aspecto ambiental, o modal pode emitir até 80% menos gases de efeito estufa do que o transporte rodoviário. Segundo a UIC, a combinação entre ferrovia, caminhão na distribuição de última milha e transporte marítimo representa uma das alternativas mais eficientes para cadeias logísticas de longa distância.
Investimentos avançam
O fortalecimento das cadeias regionais de produção e o avanço do nearshoring impulsionam novos investimentos ferroviários em diversos países. No México, destacam-se projetos como o Corredor Interoceânico do Istmo de Tehuantepec e a modernização de linhas de carga, voltados à consolidação do país como plataforma logística regional.
Levantamento da CAF identifica cerca de 155 projetos ferroviários em desenvolvimento na América Latina, com investimentos estimados entre US$ 380 bilhões e US$ 400 bilhões.
No Brasil, a expansão da malha continua sendo considerada estratégica para aumentar a competitividade das exportações, especialmente do agronegócio. Argentina, Colômbia, Chile e Uruguai também desenvolvem projetos para reativar corredores ferroviários e estruturar novos modelos de concessão. Os corredores bioceânicos aparecem entre as iniciativas capazes de reduzir custos e tempos de transporte entre os oceanos Atlântico e Pacífico.
Desafio estrutural
Apesar do aumento dos investimentos previstos, especialistas avaliam que a recuperação do transporte ferroviário latino-americano exigirá superar problemas históricos, como a baixa taxa de investimento, a fragmentação regulatória, a falta de interoperabilidade técnica e a necessidade de ampliar a coordenação entre governos e iniciativa privada.
Entre as prioridades apontadas pelos organismos internacionais estão o planejamento de corredores multimodais, investimentos contínuos em infraestrutura, sinalização e terminais intermodais, harmonização das normas para operações transfronteiriças e mecanismos de financiamento capazes de combinar recursos públicos, privados e de bancos de desenvolvimento.
Para Murilo Martins, da Loram, o aumento da participação das ferrovias dependerá não apenas da expansão da malha, mas da capacidade de tornar a infraestrutura existente mais eficiente. Segundo o executivo, tecnologias de manutenção preditiva, digitalização e melhor gestão operacional serão determinantes para ampliar a produtividade do sistema ferroviário brasileiro e aproximá-lo dos níveis observados em mercados mais maduros.
Tags: Transporte Moderno

