Contratação de frete: Como a relação entre embarcadores e transportadoras se tornou mais estratégica - ANATC - Associação Nacional das Empresas de Transporte de Cargas

Contratação de frete: Como a relação entre embarcadores e transportadoras se tornou mais estratégica

Contratação de frete: Como a relação entre embarcadores e transportadoras se tornou mais estratégica

A contratação de frete no transporte rodoviário de cargas passou a envolver uma dinâmica operacional mais ampla do que a tradicional negociação por preço. Em um setor marcado pela terceirização das operações, avanço da fiscalização eletrônica e necessidade crescente de previsibilidade logística, embarcadores passaram a ampliar a atenção sobre fatores ligados à rastreabilidade, regularidade documental, capacidade operacional e gerenciamento de risco das transportadoras.

A dimensão do setor ajuda a explicar esse movimento. Dados do Boletim Estatístico do Transporte Rodoviário, divulgado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), mostram que o Brasil possui mais de 860 mil transportadores cadastrados no Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas (RNTRC), entre autônomos, empresas e cooperativas. A frota registrada soma cerca de 1,7 milhão de veículos de tração e 1 milhão de implementos rodoviários.

Segundo os dados mais recentes do RNTRC, o setor reúne aproximadamente 620 mil transportadores autônomos de cargas (TACs), 50,6 mil empresas de transporte de cargas (ETCs), 187,5 mil ETCs equiparadas a TAC e 454 cooperativas de transporte de cargas (CTCs).

O volume operacional também aparece nos números relacionados à regulação do setor. Somente em 2025, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) registrou mais de 962 mil atendimentos ligados ao RNTRC. Desse total, cerca de 766 mil envolveram movimentações de frota entre transportadores, enquanto outros 383 mil pedidos foram atendidos por meio da plataforma digital da agência.

Outro indicador observado pela ANTT é o avanço do Pagamento Eletrônico de Frete (PEF). Em 2025, foram registrados cerca de 20 milhões de pagamentos eletrônicos de frete, alta de 7,1% em relação ao ano anterior. Segundo a agência, o mecanismo amplia a rastreabilidade das operações e reduz assimetrias relacionadas ao pagamento do transporte.

Nesse cenário, a relação entre embarcador e transportador passou a exigir mais integração operacional, compartilhamento de informações e alinhamento sobre nível de serviço.

FISCALIZAÇÃO ELETRÔNICA E CORRESPONSABILIDADE NA OPERAÇÃO

Embora o setor ainda apresente diferentes níveis de maturidade operacional, especialmente entre pequenas e grandes empresas, o avanço da digitalização logística vem alterando gradualmente a forma como embarcadores acompanham e controlam as operações.

Em artigo publicado pela nstech, a empresa destacou que o papel do embarcador passou a incorporar atividades ligadas ao monitoramento da operação logística, acompanhamento de indicadores e integração de informações ao longo do transporte. Segundo a companhia, ferramentas como sistemas de gestão de transporte (TMS), rastreamento em tempo real e plataformas de visibilidade operacional vêm ampliando a capacidade de controle sobre prazos, ocorrências e desempenho das transportadoras.

O próprio Plano Nacional de Logística (PNL), elaborado pelo Governo Federal, cita fatores como confiabilidade, regularidade, segurança da carga e tempo de carga e descarga entre os elementos relevantes para eficiência do transporte no país.

A discussão ganhou ainda mais relevância em meio ao avanço da fiscalização eletrônica no transporte rodoviário. Em 2025, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) ampliou mecanismos automáticos de fiscalização relacionados ao MDF-e e ao CIOT, utilizados no monitoramento das operações de frete.

A automação desse processo aumentou a necessidade de controle documental e reforçou a preocupação das empresas com conformidade regulatória. Em orientações disponíveis no portal oficial, a própria ANTT destaca que embarcadores também podem ser responsabilizados em irregularidades relacionadas à contratação do transporte.

Inclusive, a nstech estruturou uma abordagem focada em governança da operação logística, conectando as exigências regulatórias à execução.

Por meio do MultiTMS, a companhia passa a oferecer ao mercado uma plataforma de suporte à governança e ao controle da conformidade operacional, que organiza o fluxo do pedido ao pagamento, com validações automatizadas e integração dos documentos exigidos pela legislação.

Na prática, o modelo permite validar, ainda na origem, a aderência ao piso mínimo e garantir a emissão integrada de registros como CT-e, VPO, CIOT e MDF-e. Com isso, empresas passam a centralizar decisões, reduzir dependências operacionais e ampliar a rastreabilidade das transações.

De acordo com a empresa, a urgência é reforçada pela ampliação da obrigatoriedade do CIOT a partir de 24 de maio de 2026 para todas as operações remuneradas e pelo avanço da capacidade de monitoramento dos órgãos reguladores. Sem automação integrada, aumenta o risco de inconsistências na formalização do transporte, o que eleva o nível de criticidade da gestão logística.

RELAÇÃO ENTRE EMBARCADOR E TRANSPORTADOR GANHA NOVO PESO ESTRATÉGICO

A discussão sobre essa relação também aparece nas análises de executivos do setor. Em artigo publicado na edição 92 da MundoLogística, o diretor-presidente da Tigerlog, Marco Antonio Oliveira Neves, defendeu que a relação entre embarcador e transportador precisa se apoiar em maior transparência operacional e em contratos mais estruturados.

Segundo Neves, muitos acordos ainda são conduzidos de maneira pouco formalizada no transporte rodoviário. “Muitas relações não têm contrato. Elas surgem a partir de um e-mail, quando alguém manda uma tabela e, assim, começam a operar. O contrato é importante, e não só o contrato jurídico, mas o contrato que represente um módulo operacional, como se ele fosse uma bíblia a ser seguida”, afirmou.

Na avaliação do executivo, o contrato também funciona como instrumento para definição de nível de serviço, características da frota e responsabilidades operacionais. “O contrato é o ponto de partida, pois é a partir disso que tudo é definido na colaboração. Então, eu entendo que ainda estamos muito distantes de falar de qualquer coisa que não se inicie em um contrato. Infelizmente, muitos ainda não o têm, e quando têm, é um contrato ruim”, disse.

Neves também relacionou a qualidade desses acordos a temas como compliance, governança corporativa e práticas ESG, embora ressalte que parte do mercado ainda trate o tema de forma pouco estruturada. Para ele, a pressão histórica sobre margens e custos contribui para uma relação ainda marcada por desequilíbrios entre contratantes e operadores logísticos.

“O mercado de transporte já vem, de muitos anos, apanhando demais, com margens ruins, competição extremamente feroz e sem visibilidade de custos. É preciso equilibrar essa relação, que ainda é muito ganha-perde”, afirmou.

O executivo também argumentou que a discussão sobre redução de custos no transporte frequentemente permanece concentrada no valor do frete, enquanto outras ineficiências operacionais seguem pouco exploradas pelas empresas.

“O embarcador ainda não ‘acordou’ para o fato de que a próxima grande fronteira que ele tem para diminuir o custo não é no frete, e sim na gestão de estoque. Planejamento de vendas, operações, compras… é ali que está a grana. Só que mirar na redução de frete é ‘fácil’, apesar de ser uma visão míope”, disse.

INFORMALIDADE AINDA IMPACTA A RELAÇÃO ENTRE EMBARCADORES E TRANSPORTADORES

Outro ponto que segue influenciando a dinâmica do transporte rodoviário de cargas no Brasil é o peso da informalidade nas operações de frete.

Estudo “Impactos Econômicos e Fiscais da Informalidade no Pagamento do Frete no Brasil”, produzido pela GO Associados a pedido da Associação das Administradoras de Meios de Pagamento Eletrônico de Frete (Ampef), estima que o mercado informal represente cerca de 43% do transporte rodoviário de cargas no país, com impacto tributário estimado em R$ 32 bilhões por ano.

Segundo o levantamento, o mercado total de transporte rodoviário de cargas movimenta cerca de R$ 818 bilhões, dos quais R$ 341,8 bilhões estariam ligados ao segmento informal. A estimativa considera dados de consumo de diesel e faturamento declarado à Receita Federal.

O tema aparece diretamente ligado às discussões sobre rastreabilidade, fiscalização e formalização das operações. Entre os mecanismos citados por especialistas entrevistados pela MundoLogística está a permanência da chamada carta-frete em parte das operações, apesar da prática ser considerada ilegal.

Na avaliação de Lucas Sancassani, VP da Fintech da nstech, a informalidade dificulta o monitoramento efetivo do pagamento do frete e reduz a capacidade de fiscalização em tempo real. “A ANTT não consegue fiscalizar, automaticamente, se o PIX foi feito, o valor que foi feito e assim por diante”, afirmou.

A discussão também envolve o papel do CIOT nas operações de transporte. Segundo Bruna Minuzze Fernandes, head Jurídico e Compliance da efrete, o mecanismo vai além da fiscalização regulatória e atua como instrumento de proteção ao motorista autônomo. “O CIOT não era só para fiscalização, mas ele tem um fim social, que é o de garantir que o motorista ali na ponta realmente fosse receber pelo serviço dele”, afirmou.

Para especialistas ouvidos pela publicação, a rastreabilidade do pagamento do frete e a formalização das operações tendem a ganhar relevância em um ambiente de maior fiscalização eletrônica e necessidade de comprovação documental.

COMO ESTAR, DE FATO, ATUALIZADO?

Para preencher essa e outras lacunas estruturais do setor, a MundoLogística realizará o Transporte do Futuro, nos dias 17 e 18 de junho de 2026, no Expo Center Norte, em São Paulo. O evento reúne mais de 2 mil líderes do setor — donos de transportadoras, CEOs, gestores e diretores de grandes embarcadores — em torno de conteúdo técnico aplicado, geração de negócios e relacionamento com quem está, de fato, remodelando o transporte rodoviário de cargas no Brasil.

Temas como gestão de motoristas, compliance trabalhista, planejamento financeiro, controle de custos operacionais e o uso de tecnologia na tomada de decisões integram a programação, estruturada em trilhas temáticas por segmento — agro, varejo, indústria e e-commerce. Além dos palcos, o evento terá área de negócios, Matchmaking, mentorias e espaços exclusivos de relacionamento.

As inscrições estão abertas no site oficial do evento: transportedofuturo.com.br.

Tags: Mundo Logística

Fonte: Mundo Logística / Foto: Divulgação

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