Superquarta: Fed deve manter e Copom ser mais comedido no corte de juro - ANATC - Associação Nacional das Empresas de Transporte de Cargas

Superquarta: Fed deve manter e Copom ser mais comedido no corte de juro

Cotação do petróleo acima de US$ 100 por conflito no Oriente Médio acende sinal amarelo para bancos centrais

Os conflitos no Oriente Médio não devem alterar a decisão de hoje do Federal Reserve (Fed), que já era esperada para manter novamente os juros estáveis nos Estados Unidos. No entanto, o novo choque de oferta, com a disparada dos preços do petróleo para mais de US$ 100 o barril, obriga a autoridade monetária mais vigiada do mundo a manter a cautela e adotar uma postura de esperar para ver, enquanto Wall Street já vê riscos de a retomada de cortes nas taxas ficar para 2027. Já no Brasil, a conjuntura de incertezas gerou dispersão nas apostas para a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), mas agentes consultados pela Broadcast concordam em um ponto: o Banco Central deve entregar em todo 2026 um ciclo de flexibilização monetária mais conservador do que o previsto antes da eclosão da guerra, qualquer que seja a definição desta noite.

O mercado precifica chances superiores a 99% de o Comitê Federal do Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) manter os juros americanos estáveis na faixa de 3,50% a 3,75% na reunião que começa hoje e termina amanhã, mostra levantamento da plataforma CME Group. Se confirmado, será a segunda vez consecutiva que o banco central dos EUA manterá juros inalterados neste ano.

“Esperamos que o Fed mantenha os juros estáveis enquanto debate as perspectivas, incluindo o grau em que o emprego se estabilizou, o risco que os preços mais altos do petróleo representam para a inflação e a atividade, e o caminho apropriado para a política monetária”, diz o economista do Morgan Stanley para os EUA, Michael Gapen.

Apesar disso, a decisão não deve ser unânime, mantendo a divisão interna que tem prevalecido nos últimos encontros do Fomc. Os bancos americanos Morgan Stanley e Goldman Sachs esperam três dissidentes: a diretora do Fed, Michelle Bowman, deve se juntar aos colegas Christopher Waller e Stephen Miran em favor de uma redução de 25 pontos-base. Já o Barclays vê somente os dois últimos nessa direção.

Com a decisão de março praticamente dada, a atenção do mercado estará voltada para as projeções econômicas do Fed, que serão divulgadas em paralelo, em busca dos impactos econômicos dos conflitos no Oriente Médio. Outro ponto de atenção são as falas do presidente da autoridade, Jerome Powell, na tradicional coletiva de imprensa que realiza ao fim de cada encontro.

O Bank of America espera que o comunicado do Fomc, após o fim de sua reunião, inclua a frase “a incerteza sobre as perspectivas econômicas aumentou devido ao conflito no Irã” e “outras alterações mínimas”. Quanto às projeções, o banco antevê uma “pequena mudança”, com expectativas mais elevadas para a inflação nos EUA, enquanto o gráfico de pontos deve continuar indicando somente um corte de juros para este ano. E outro para 2027, acrescenta o Goldman Sachs.

“Prever dados econômicos é sempre difícil, mas as circunstâncias recentes tornaram essa tarefa ainda mais árdua do que o habitual”, avalia o economista-chefe do Jefferies para os EUA, Thomas Simons. “Agora, o cenário complica-se ainda mais devido a um choque de oferta no mercado de petróleo”, acrescenta.

Efeito no Brasil

A disparada das cotações do petróleo e o IPCA mais salgado de fevereiro desencadearam um movimento generalizado de revisões para o ajuste inicial da Selic a ser feito nesta semana, com a maioria das instituições agora prevendo um corte de 0,25 ponto porcentual do juro básico, frente a perspectiva anterior de queda de 0,5 ponto.

Poucas mudanças, por entanto, foram divulgadas para projeção de taxa terminal deste ano. Porém, o sentimento do mercado é o de que um orçamento total de 300 pontos-base de corte, com a Selic chegando a 12% em dezembro, ficou improvável. O calendário eleitoral, deixado em segundo plano depois do início do conflito, é outro fator que também pode impedir afrouxamento mais expressivo. Adicionando ainda mais ruído ao cenário, a possibilidade de uma greve dos caminhoneiros seria outro evento com impacto altista sobre a inflação.

Publicado na segunda-feira, o boletim Focus mostrou que a mediana dos analistas para os juros no final do ano subiu de 12,13% na semana anterior para 12,25%. Já a precificação da curva de juros futuros apontava no fechamento desta terça-feira uma taxa terminal de 13,75%, frente a 13,60% na segunda-feira.

Diretor de Pesquisa Econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira reconhece que aumentou a chance de um ajuste inicial menor na Selic, de 0,25 ponto, mas mantém seu cenário de corte de 0,5 ponto no juro básico esta semana. Em sua visão, a desaceleração da atividade econômica e também da inflação, ainda que os últimos dados de preços tenham trazido surpresas altistas, dão espaço para que a autoridade monetária comece o ciclo em um ritmo mais rápido.

Essa velocidade, no entanto, pode ser reduzida mais à frente, pondera Oliveira. “O cenário mais provável é um corte de 50 em 50 pontos e, se o BC achar que está desconfortável, diminui o ritmo para 25 pontos daqui a dois meses”, disse o diretor, que, por ora, ainda não alterou sua projeção de Selic abaixo de 12% no fim do ano.

O gestor de portfólio Gean Lima, da Connex Capital, foi um entre vários profissionais do mercado que mudou sua estimativa para a primeira flexibilização da Selic, de 0,50 ponto a 0,25 ponto. Lima ainda deve esperar um pouco mais para rever seu cenário-base para a taxa terminal, mas adianta que um alívio total de 3 pontos este ano, conforme previsto antes da guerra, já ficou fora de cogitação.

“As previsões estão bem dispersas e há uma incerteza grande às vésperas da reunião. Ainda preciso ter mais previsibilidade para traçar algum cenário factível”, observa o profissional. “Achava que ia ser uma Selic abaixo de 12% antes da guerra, e agora parece mais 13%”, antecipou. Isso porque, segundo ele, a escalada dos preços de energia e a piora do comportamento do câmbio podem pressionar as projeções de inflação do BC no horizonte relevante para a política monetária, impondo uma cautela extra nos próximos ajustes no juro.

Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren Investimentos, afirma que a decisão do Copom desta quarta-feira é uma das difíceis de antecipar, mas mesmo assim segue com sua projeção de corte 0,5 ponto. A plataforma de investimentos, no entanto, mudou a perspectiva para 2026. “O Focus apontava que a Selic encerraria o ano com queda de 300 pontos-base, mas o Copom consegue entregar no máximo 200 pontos”, avalia Vital.

O cenário mais pessimista de inflação da Warren – que prevê aumento entre 4,3% e 4,5% para o IPCA deste ano, ante estimativa de 4,1% do consenso de mercado – justifica a nova projeção de 13% para a Selic no fechamento do ano, diz o estrategista, destacando que a percepção é algo mais geral. “Teve uma mudança importante na visão para política monetária, não só para esta reunião. Agora a Selic deve ir de 15% para 13% e tem gente vendo menos ainda [de cortes]”, relatou.

Ele menciona que, além do caráter inflacionário do conflito, que pode adicionar 0,7 ponto à inflação de 2026, os dados de atividade e inflação domésticos, em sua avaliação, não estão vindo mistos, mas sim na direção de uma resiliência maior dos serviços e da economia – o que também deixa menos margem de manobra para o BC afrouxar a Selic.

A resiliência demonstrada pela atividade econômica doméstica nos últimos meses também é apontada pela XP Investimentos, que passou a trabalhar com manutenção da taxa básica de juros na reunião deste mês do Copom. No cenário-base da corretora agora, haverá quatro reduções da Selic em 0,50 ponto a partir de abril, com o juro básico encerrando 2026 em 13%.

“Vemos riscos altistas para a nossa projeção de taxa Selic a 13% no final de 2026”, alertou a instituição em relatório, citando a alta do petróleo, fim da ajuda de fatores climáticos para a oferta de alimentos e, por fim, pressão que deve ser observada no câmbio durante o período eleitoral.

Tags: Agência Broadcast

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