REGIÃO CENTRO OESTE
Primeira etapa da ferrovia mobiliza 5 mil trabalhadores, prevê 211 km de operação até 2026 e prepara expansão rumo ao norte do estado
A Ferrovia de Mato Grosso (FMT), maior empreendimento ferroviário atualmente em construção no Brasil, alcançou 73% de execução física e mantém ritmo acelerado antes do período de chuvas. Com investimento estimado em R$ 5 bilhões na primeira etapa e cerca de 5 mil trabalhadores mobilizados nos canteiros, a obra deve ser concluída em meados de 2026.
O projeto, de capital integralmente privado, prevê a implantação de 743 quilômetros de trilhos que estenderão a Malha Norte rumo ao centro produtivo de grãos do estado. A ferrovia começou a ser construída em 2022 sob o modelo de autorização estadual e foi estruturada em três fases. A etapa inicial liga Rondonópolis a um novo terminal em construção entre Dom Aquino e Campo Verde, totalizando 162 quilômetros, dos quais 160 km devem entrar em operação no segundo semestre de 2026, a tempo do escoamento da safrinha de milho. O trecho total dessa primeira fase prevê circulação de trens ao longo de 211 quilômetros e conta com 5 mil postos de trabalho, o equivalente a cerca de 60% de todas as vagas abertas em Mato Grosso em obras de infraestrutura.
O terminal BR-070, em implantação na região de Campo Verde, terá capacidade para movimentar 10 milhões de toneladas por ano. As fases seguintes devem levar a ferrovia a Nova Mutum e Lucas do Rio Verde, áreas de forte expansão agrícola, e incluem ainda um ramal para Cuiabá, todos sem cronograma definido para início das obras. A decisão sobre os próximos passos deverá ser tomada entre dezembro e janeiro pelo conselho de administração da empresa responsável, considerando projeções de investimento, receita e custo de capital. O planejamento também passa por etapas de refinamento de engenharia, licenciamentos ambientais e coordenação com prefeituras dos 16 municípios que serão cortados pelos trilhos.
A FMT foi concebida para reduzir a distância entre as áreas de produção e os pontos de embarque ferroviário, hoje concentrados no megaterminal da Rumo em Rondonópolis. Atualmente, caminhões percorrem até 500 quilômetros a partir das fazendas para alcançar o terminal, de onde a carga segue pela Malha Norte e pela Malha Paulista até o Porto de Santos, percurso de 76 horas. O novo traçado busca encurtar trechos rodoviários, diminuir custos logísticos e ampliar a competitividade do escoamento da safra. Em 2024, aproximadamente 40% das cerca de 150 milhões de toneladas de grãos exportadas pelo país foram produzidas em Mato Grosso.
1 km por dia
No canteiro de obras, a maior parte da terraplanagem está concluída, assim como boa parte das pontes e viadutos previstos. A instalação de dormentes e trilhos avança a um ritmo próximo de um quilômetro por dia. Ao todo, a ferrovia contará com 22 pontes, 21 viadutos e 2 quilômetros de túneis. A fábrica de dormentes acumula grandes estoques de peças de concreto à medida que o traçado avança pelo interior do estado.
O empreendimento foi projetado para ser integrado à malha nacional de transporte ferroviário, composta por cerca de 31 mil quilômetros, dos quais quase metade está desativada ou subutilizada. Estudos recentes apontam que as ferrovias respondem por aproximadamente 27% do transporte de cargas no Brasil. A ampliação de corredores ferroviários é vista como caminho para reduzir a dependência de longos percursos rodoviários, considerados mais econômicos apenas em trechos de curta distância.
A base operacional da obra fica em Rondonópolis, onde está localizado o principal terminal da empresa, que recebe cerca de 1.600 caminhões por dia e movimenta 22 milhões de toneladas por ano. A cidade, marcada pela migração de diversas regiões do país, concentra parte expressiva da mão de obra da construção, que reúne profissionais de diferentes estados. O complexo ferroviário da empresa no país soma 13,5 mil quilômetros de trilhos, aproximadamente 1.200 locomotivas, 33 mil vagões e dez terminais multimodais.
Investimento
O investimento total da FMT é estimado entre R$ 12 bilhões e R$ 15 bilhões. A empresa calcula que o projeto poderá gerar 145 mil empregos diretos e indiretos ao longo das etapas de implantação. A ferrovia também deve contribuir para reorganizar fluxos logísticos, ao ampliar a capacidade de armazenagem e transporte de grãos. Em Rondonópolis, práticas operacionais adotadas nos últimos anos, como o uso de sistemas de controle para evitar filas de caminhões, já refletem esse processo de adaptação.
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