Incertezas no abastecimento global estimulam novas soluções para refino e combustíveis. No Brasil, segurança energética cruza com necessidade de criar mercados para a crescente oferta de biocombustíveis
Refinarias e projetos de combustíveis avançados ganham atenção diante das incertezas globais.
Ao mesmo tempo, o Brasil discute como usar a oferta de etanol e biodiesel para abastecer novos mercados, como a navegação.
A preocupação com a segurança energética tem levado empresas latino-americanas a buscar maior capacidade de produção, inclusive com ganhos de eficiência nas refinarias existentes.
Ao mesmo tempo, a necessidade de reduzir a exposição às crises internacionais também abre espaço para a América Latina ganhar relevância como fornecedora de petróleo, gás, biocombustíveis e minerais críticos.
A avaliação é do CEO e presidente Latam da Honeywell Technologies, José Fernandes.
Em um cenário de incertezas no abastecimento global de derivados de petróleo e aumento de preços, projetos de eficiência, biocombustíveis tradicionais, coprocessamento de matérias-primas renováveis em refinarias de petróleo e combustíveis avançados atraem a atenção de investidores sob a bandeira da segurança energética.
“Eles vêm para complementar a questão da segurança energética a nível global e dar mais uma opção a diferentes indústrias e cadeias, de ter materiais que são compatíveis com os que existem hoje, só que fabricados de uma outra forma”, comenta o executivo.
Por aqui, a Honeywell está fornecendo tecnologia para a biorrefinaria da Acelen Renováveis, que irá produzir combustível sustentável de aviação (SAF) e diesel verde na Bahia, usando óleos residuais e, futuramente, macaúba. A maior parte da produção já está vendida para companhias dos Estados Unidos e Europa.
Além da unidade da Petrobras na Refinaria Presidente Bernardes (RPBC), em Cubatão (SP).
- A Petrobras também está investindo no biorrefino de olho no mercado internacional, contou o diretor de Processos Industriais da estatal, William França, durante participação no estúdio eixos na ROG.e 2026.
A navegação é outra aposta. Fernandes afirma que a Honeywell acompanha a discussão sobre uma política brasileira para combustíveis marítimos sustentáveis e participa dos debates técnicos com governo, associações e empresas.
A companhia também desenvolveu uma tecnologia chamada de biocrude, voltada à produção de combustível marítimo renovável e também vê espaço para combustíveis sintéticos, como o e-metanol.
A escolha do combustível favorito, segundo o CEO, dependerá da matéria-prima disponível e das condições de cada projeto.
“Não existe uma resposta única para ajudar a aumentar a questão da eficiência da segurança energética a nível global”.
Novos mercados para os biocombustíveis
Ao mesmo tempo em que a guerra no Oriente Médio passou a reforçar a necessidade de diversificar as matrizes energéticas, a disponibilidade de biocombustíveis no Brasil tem demandado do governo brasileiro a criação de novos mercados para escoar, principalmente, etanol e biodiesel.
Um desses possíveis mercados é justamente a navegação.
Esta semana, o Ministério de Minas e Energia (MME) organizou um workshop em Brasília com representantes do governo e do setor produtivo para discutir as propostas para um programa de combustíveis aquaviários sustentáveis.
Entre as demandas do setor privado estavam a aceleração da construção do marco legal e a remoção de barreiras regulatórias para aproveitar uma oferta que já existe no país.
“A disponibilidade do etanol e biodiesel é mais uma evidência de que a gente precisa acelerar o passo para desenhar essa política”, afirmou Marlon Arraes, diretor de Programa do MME.
Em abril, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou o relatório com recomendações para políticas de transição no transporte aquaviário, entre elas, a “atualização da Lei do Combustível do Futuro, para incorporação do capítulo do Programa Nacional de Combustíveis Sustentáveis”.
A instituição do programa para combustíveis sustentáveis de navegação chegou inclusive a entrar e sair de uma reunião do CNPE convocada para setembro, e depois cancelada.
Segundo Lorena de Souza, diretora do Departamento de Biocombustíveis do MME, o governo trabalha em uma proposta legislativa, ainda sem texto final. O programa poderá ser instituído por uma lei própria ou por um projeto que altere a Lei do Combustível do Futuro.
A proposta é estabelecer objetivos, governança, agentes obrigados, abrangência das metas, formas de cumprimento e sanções.
Permanecem em discussão questões como a inclusão das diferentes modalidades de navegação, o tratamento do longo curso e a definição de obrigações por empresa, frota ou embarcação.
Será também uma oportunidade para o Brasil influenciar as negociações na Organização Marítima Internacional (IMO, em inglês), posicionando seus biocombustíveis como uma alternativa pronta para embarcar.
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