Frota moderna é importante, mas não suficiente: infraestrutura, tecnologia, pessoas, tributação e processos definirão a competitividade do transporte
Existe uma tentação natural quando falamos sobre o futuro do transporte: imaginar o caminhão. Um caminhão mais econômico. Mais seguro. Mais conectado. Talvez elétrico, híbrido, movido a biometano ou hidrogênio. No limite, completamente autônomo.
Tudo isso fará parte do futuro. Mas existe uma questão que precisamos enfrentar antes: de que adianta termos o caminhão mais moderno do mundo se continuarmos operando dentro de um sistema ineficiente?
Competitividade não se constrói apenas com frota. Ela é resultado da combinação entre veículo, infraestrutura, pessoas, processos, tecnologia e ambiente regulatório.
O CAMINHÃO É APENAS UMA PARTE DA EQUAÇÃO
O transporte rodoviário brasileiro enfrenta uma estrutura de custos extremamente complexa. A legislação do piso mínimo do frete é um exemplo: a metodologia estabelece parâmetros para o cálculo do piso, mas não significa que todos os componentes do custo empresarial estejam contemplados nessa conta. Lucro, pedágio e determinadas despesas administrativas e tributárias precisam ser considerados na composição do preço final.
Isso exige uma relação cada vez mais madura entre transportadores e embarcadores. Precisamos deixar para trás a ideia de que toda discussão sobre frete é uma disputa entre quem quer pagar menos e quem precisa cobrar mais. Existe uma terceira alternativa: construir uma operação mais eficiente para que ambos sejam competitivos.
O mesmo raciocínio vale para a tributação. O setor convive com diferentes impostos e contribuições e com uma estrutura pesada de custos sobre a folha. A reoneração gradual da folha acrescenta uma nova variável ao planejamento das empresas.
E a Reforma Tributária abre outro capítulo. A transição para CBS e IBS está transformando processos, sistemas e documentos fiscais. Para o transporte, o CT-e está no centro dessa mudança. A qualidade da informação fiscal passa a ter impacto direto na capacidade de apuração e apropriação de créditos.
O ponto central não é apenas quanto será pago de imposto. É como a empresa estará preparada para apurar corretamente, aproveitar créditos e evitar que falhas de processo se transformem em aumento de custo.
Isso exige integração entre fiscal, financeiro, tecnologia e operação. Produtividade não está apenas no veículo; está no sistema.
O tempo de carga e descarga continua sendo um dos grandes desperdícios do transporte. Quando um caminhão fica parado, não perdemos apenas uma hora de operação. Perdemos utilização do ativo, produtividade do motorista e capacidade de atendimento.
É por isso que soluções aparentemente simples, como agendamento inteligente, integração de sistemas e compartilhamento de informações, podem gerar impacto tão relevante quanto investimentos milionários em novos equipamentos.
A infraestrutura também precisa entrar nessa conta. Estradas deficientes aumentam custos de manutenção, consumo, tempo de viagem, acidentes e avarias. Portos e ferrovias pouco eficientes geram impactos que acabam chegando ao transporte rodoviário.
Não podemos discutir competitividade do caminhão sem discutir competitividade da cadeia.
PESSOAS CONTINUAM SENDO PARTE DA TECNOLOGIA
Existe ainda uma variável que nenhum balanço pode ignorar: as pessoas. O transporte enfrenta uma dificuldade crescente para atrair e reter motoristas. Ao mesmo tempo, o perfil da profissão está mudando.
A cabine moderna possui câmeras, sensores de ponto cego, rastreadores, telemetria, sistemas de segurança e diversas interfaces. O motorista precisa lidar com tudo isso enquanto continua responsável pela condução segura do veículo.
Por isso, a transformação tecnológica precisa ser acompanhada por uma transformação profissional. Não podemos colocar mais tecnologia dentro do caminhão sem investir na capacidade de quem está dentro dele. Treinamento, qualificação e valorização profissional serão tão importantes quanto sensores e algoritmos.
E quando o caminhão não precisar mais de um motorista? É provável que os veículos se tornem cada vez mais automatizados.
Talvez tenhamos operações remotamente supervisionadas. Em determinados ambientes, caminhões autônomos poderão se tornar economicamente viáveis. A inteligência artificial poderá otimizar rotas, prever manutenção, identificar riscos e melhorar a utilização da frota.
Mas isso não significa que a tecnologia eliminará todos os problemas. Um caminhão autônomo também precisa de uma estrada adequada. Um veículo elétrico também precisa de infraestrutura de recarga. Um algoritmo também precisa de dados confiáveis. E uma operação automatizada também precisa de processos eficientes.
Por isso, a discussão sobre o futuro não deveria começar perguntando qual será o próximo caminhão. Deveria começar perguntando qual será o próximo modelo de operação.
O mercado provavelmente caminhará para empresas mais tecnológicas, mais profissionalizadas e, possivelmente, mais consolidadas. Escala poderá ser importante para absorver investimentos em sistemas, segurança, dados, treinamento e novas tecnologias.
Mas escala, sozinha, não será suficiente.
Será necessário saber integrar. Caminhão e tecnologia, motorista e informação, transportador e embarcador, rodovia e ferrovia, fiscal e operação, segurança e produtividade… e essa talvez seja a verdadeira fronteira competitiva do transporte brasileiro.
O caminhão do futuro será melhor, mas a empresa que souber operar melhor um sistema inteiro terá uma vantagem ainda maior. Porque, no final, o ativo mais importante do transporte não é o caminhão. É a eficiência de todo o ecossistema ao redor dele.
Tags: Mundo Logística

