Os desafios da profissão de motorista e o futuro do Transporte Rodoviário De Cargas - ANATC - Associação Nacional das Empresas de Transporte de Cargas

Os desafios da profissão de motorista e o futuro do Transporte Rodoviário De Cargas

1. Introdução

O Transporte Rodoviário de Cargas responde por aproximadamente 65% da movimentação de mercadorias no Brasil e desempenha papel estratégico para o funcionamento da economia nacional.

Trata-se de um setor econômico fundamental para o abastecimento dos centros urbanos, para o escoamento da produção agrícola e pecuária, para a logística da indústria e do comércio. É certo que toda atividade econômica depende, em maior ou menor grau, da eficiência do transporte rodoviário de cargas.

Entretanto, apesar da importância estratégica do setor, um de seus principais ativos vem se tornando cada vez mais escasso: o motorista profissional.

A dificuldade de atrair novos profissionais, o envelhecimento da categoria e a crescente complexidade da atividade têm despertado preocupação não apenas entre as empresas transportadoras, mas também entre entidades representativas, órgãos públicos e organismos internacionais especializados em transporte.

Não se trata de um problema exclusivamente brasileiro.

2. Dados da IRU alertam para uma carência mundial de motoristas

A International Road Transport Union (IRU), entidade internacional que representa o transporte rodoviário em mais de cem países, vem alertando, há alguns anos, para o agravamento da escassez mundial de motoristas profissionais.

Segundo dados do Global Truck Driver Shortage Report 2024, divulgado em abril de 2025, cerca de 3,6 milhões de vagas de motoristas de caminhão permanecem abertas nos 36 países pesquisados, que representam aproximadamente 70% do PIB mundial.

Embora esse número seja semelhante ao observado em 2023, a IRU esclarece que isso ocorreu em razão da desaceleração da demanda por transporte em alguns mercados, e não porque o problema tenha sido resolvido.

Para a IRU, o fator mais preocupante atualmente não é apenas a falta de profissionais, mas a evolução demográfica da profissão.

Os dados mostram que apenas 6,5% dos motoristas profissionais têm menos de 25 anos e aproximadamente 31,6% possuem mais de 55 anos.

Segundo a entidade, esse “abismo etário” constitui hoje a maior ameaça ao transporte rodoviário.

O estudo estima que, até 2029, aproximadamente 3,4 milhões de motoristas atualmente empregados deverão se aposentar apenas nos países pesquisados.

Em outras palavras, o setor já possui milhões de vagas abertas e, simultaneamente, perderá milhões de profissionais experientes em poucos anos.

A principal conclusão da IRU é que a escassez de motoristas deixou de ser um fenômeno conjuntural e passou a constituir um problema estrutural do transporte rodoviário de cargas em praticamente todas as regiões do mundo.

3. A falta de motoristas no Brasil

No Brasil, essa preocupação também vem sendo objeto de estudos cada vez mais aprofundados.

Estudos de 2024 do Instituto Paulista do Transporte de Cargas (IPTC) apontam que o Transporte Rodoviário de Cargas perdeu, na última década, 1,17 milhão de motoristas habilitados (categorias C e E).

Mais de 71% dos motoristas estão na faixa de 41 a 70 anos, e a adesão de jovens é inexpressiva: menos de 5% de todos os habilitados têm 30 anos ou menos.

Além disso, 88% das Empresas de Transporte no Brasil relatam dificuldade de contratar motoristas.

4. As condições de trabalho dos motoristas no Brasil

Recentemente, duas importantes pesquisas foram divulgadas com o propósito de conhecer melhor a realidade do motorista profissional. A primeira foi realizada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), ouvindo motoristas empregados e autônomos em diversas regiões do país. A segunda foi elaborada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes Terrestres (CNTTT), direcionada especificamente aos motoristas empregados.

Embora desenvolvidas por entidades representativas de setores distintos, ambas apresentam um aspecto extremamente relevante: chegaram, em grande medida, às mesmas conclusões sobre os principais desafios enfrentados atualmente pela profissão.

Esse talvez seja o maior mérito dessas pesquisas.

Mais do que identificar problemas, elas oferecem um diagnóstico consistente da realidade vivenciada pelos motoristas profissionais e fornecem importantes elementos para que empresas, trabalhadores e Poder Público possam construir soluções capazes de fortalecer o Transporte Rodoviário de Cargas.

5. Principais dados da Pesquisa da CNT

A pesquisa realizada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) foi realizada no período de 25 de setembro a 03 de outubro de 2025 e realizou 800 entrevistas, sendo 474 motoristas profissionais autônomos (59,3%) e 326 motoristas empregados (40,8%), e possui uma margem de erro de 3,5%, estando disponível no link: https://cdn.cnt.org.br/diretorioVirtual/e291a057-703a-4ee5-8849-e276ebe749c0.pdf

Houve o cuidado de realizar as entrevistas em pontos de parada, ou seja, 58 postos de combustíveis distribuídos em seis estados, abrangendo as cinco regiões do país.

Alguns dados relevantes foram extraídos da pesquisa da CNT sobre o perfil dos motoristas e as condições de trabalho.

A média de quilometragem mensal percorrida pelos motoristas entrevistados é de 9.859 km, sendo que 29,3% percorrem até 5 mil km e 33,1% de 5 a 10 mil km por mês.

Há prevalência de rotas de longas distâncias, ou seja, mais de 500 km por dia, correspondendo esta hipótese a 59,1%.

A média de folgas no mês é de 5,6 dias, e a média de dias trabalhados na semana é de 5,7 e sem considerar períodos de descanso, pausas e refeições.

Sobre o descanso interjornada a cada 24 horas previsto na Lei 13.103/15, 54,5% dos entrevistados entende que este período é mais do que suficiente e, ao serem indagados sobre qual período entendem ser adequado, 69,3% responderam acima de 6 horas até 8 horas, e a média ficou em 7 horas e 30 minutos.

6. Principais dados da Pesquisa da CNTTT

A pesquisa da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes Terrestres (CNTTT) entrevistou 1.015 motoristas profissionais do Transporte Rodoviário de Cargas nas cinco regiões do país e foi realizada de 9 a 25 de janeiro de 2026, e pode ser acessada pelo link: https://www.cnttt.org.br/noticias/pesquisa-nacional-motoristas-2026 

Alguns dados relevantes foram identificados nessa amostra, tais como: envelhecimento acentuado, com a média de idade de 45 anos; prevalência de homens (99,7%); escolaridade até o ensino fundamental em 43,6%, sendo casa a maior parte dos motoristas (75%); remuneração média de R$ 3.206,00 de salário base e de R$ 6.006,00 de salário líquido.

Em relação aos atrativos na profissão, foram citados: renda competitiva (57%); contato com diversas regiões do país, culturas e paisagens (35%); liberdade de escolher onde comer e onde dormir (33%).

Quanto aos fatores de afastamento da profissão, foram identificadas barreiras estruturais e simbólicas, sendo as mais citadas: preconceito contra a classe (70%); baixas remunerações (58%); condições de trabalho adversas (51%); insuficiência da legislação e políticas públicas efetivas (41%); falta de perspectivas de crescimento (38%).

Outro aspecto importante da pesquisa da CNTTT é que 93% dos motoristas afirmaram que fazem o descanso obrigatório diário em postos de combustíveis, o que evidencia a importância de estruturas adequadas e disponíveis para que possam cumprir os descansos legais.

No que tange à quantidade de horas consecutivas ideal para o intervalo interjornada, 58% dos entrevistados preferem o fracionamento das 11 horas enquanto que 42% preferem usufruir do descanso interjornada de forma ininterrupta.

Em relação ao descanso semanal remunerado, cerca de 81% dos motoristas preferem usufruir o descanso ao final da viagem em suas residências, e 84% indicaram médio ou alto nível de dificuldade para encontrar um local adequado e seguro para cumprir o descanso diário. 

7. O motorista profissional como protagonista da logística nacional

Muito se discute sobre renovação de frota, infraestrutura rodoviária, tecnologia embarcada, inteligência artificial, rastreamento de cargas e eficiência operacional, sendo todos temas relevantes.

Entretanto, nenhuma dessas soluções substitui o principal protagonista da logística brasileira: o motorista profissional.

É ele quem transforma investimentos em infraestrutura, veículos e tecnologia em transporte efetivamente realizado.

Sem profissionais qualificados, experientes e motivados, nenhuma cadeia logística consegue atingir elevados níveis de produtividade.

Por essa razão, discutir o futuro do transporte rodoviário de cargas exige, necessariamente, discutir o futuro da profissão de motorista.

8. O que revelam as pesquisas

Um dos primeiros aspectos que chamam a atenção diz respeito ao perfil da categoria.

As pesquisas demonstram que a profissão é exercida predominantemente por trabalhadores do sexo masculino e experientes, ao mesmo tempo em que revelam dificuldades cada vez maiores para atrair jovens interessados em ingressar na atividade.

Trata-se de um fenômeno que preocupa todo o setor, pois a renovação da mão de obra tornou-se um dos principais desafios para a sustentabilidade do transporte rodoviário de cargas.

Outro ponto de convergência identificado pelos levantamentos refere-se às condições operacionais da atividade.

Longos períodos de espera para carregamento e descarregamento, dificuldades de infraestrutura, escassez de pontos adequados para descanso, insegurança nas rodovias e limitações operacionais continuam fazendo parte da rotina de milhares de motoristas.

De acordo com a pesquisa das CNTTT, houve frequência de relatos dos motoristas sobre esperas superiores a 5 horas na carga e descarga (82%), o que demonstra que os gargalhos logísticos, muitas vezes criados pelos embarcadores e não pelas transportadoras, são responsáveis pela redução da eficiência nas operações.

Esses fatores reduzem a produtividade das operações, aumentam o desgaste físico e emocional dos profissionais e dificultam ainda mais a atração de novos trabalhadores para a atividade.

As pesquisas também demonstram que o convívio familiar permanece entre os aspectos mais valorizados pelos motoristas.

A possibilidade de retornar com maior frequência à residência e permanecer mais tempo junto à família constitui um fator importante para a satisfação profissional e para a permanência desses trabalhadores na atividade.

Essa constatação demonstra que a discussão sobre jornada de trabalho não deve ser analisada apenas sob o aspecto jurídico. Ela envolve qualidade de vida, saúde física e mental, segurança e valorização profissional.

9. A eficiência logística depende de toda a cadeia produtiva

Um aspecto importante revelado pelas pesquisas é que muitos dos fatores que comprometem a qualidade de vida do motorista não decorrem exclusivamente da relação entre empregado e empresa transportadora.

Grande parte das dificuldades enfrentadas diariamente nasce fora da transportadora, tais como: filas para carga e descarga; longos períodos de espera nas instalações dos embarcadores e destinatários; restrições operacionais nos centros urbanos; escassez de áreas seguras para descanso e deficiência da infraestrutura rodoviária.

Esses fatores representam tempo improdutivo, elevam os custos operacionais e reduzem significativamente a eficiência do transporte.

Por essa razão, a busca por soluções deve envolver toda a cadeia logística, pois transportadoras, embarcadores, destinatários, concessionárias de rodovias, órgãos públicos e entidades representativas possuem responsabilidades compartilhadas na construção de um ambiente operacional mais eficiente.

Quanto menor o tempo improdutivo da operação, maior será a produtividade do transporte, melhor será o aproveitamento da jornada de trabalho e maiores serão as possibilidades de ampliar o tempo disponível para descanso e convivência familiar.

10. A ADI nº 5.322 e a importância de decisões baseadas em evidências

O julgamento da ADI nº 5.322 pelo Supremo Tribunal Federal trouxe profundas alterações na disciplina da jornada do motorista profissional, especialmente quanto ao intervalo interjornada e ao descanso semanal remunerado.

Independentemente das diferentes interpretações existentes acerca dos efeitos dessa decisão, um aspecto merece reflexão.

As normas que disciplinam uma atividade tão complexa quanto o transporte rodoviário de cargas, devem estar apoiadas na realidade operacional do setor.

Nesse contexto, as pesquisas recentemente realizadas assumem especial importância.

Elas oferecem dados concretos sobre a rotina dos motoristas, permitindo que futuras discussões legislativas, negociações coletivas e até mesmo debates institucionais possam ser desenvolvidos com base em evidências empíricas e não apenas em premissas teóricas.

Em relação ao descanso semanal remunerado, a pesquisa da CNT constatou que: a) 82,7% dos motoristas empregados preferem gozar o DSR em casa e apenas 11,9% preferem descansar na estrada; b) 41,4% dos motoristas preferem que o DSR seja fracionado e 55,8% preferem o DSR de forma contínua; c) 50,4% dos motoristas gostariam que a lei permitisse que o DSR fosse fracionado; d) 49,1% dos motoristas empregados disseram que 11 horas de intervalo interjornada é mais do que suficiente para descanso; e) 58,1% dos motoristas empregados entendem que o descanso de 11 horas deve ser fracionado e apenas 36,3% dos motoristas empregados preferem usufruir o descanso de forma ininterrupta.

Quanto maior o conhecimento sobre a realidade da atividade, maiores serão as possibilidades de construção de soluções equilibradas, capazes de conciliar a proteção à saúde do trabalhador, a segurança viária e a eficiência da logística nacional.

11. Pontos de convergências entre os relatórios da IRU e das pesquisas da CNT e da CNTTT

Fazendo uma comparação entre os relatórios da IRU e as pesquisas da CNT e da CNTTT sobre as condições de trabalho dos motoristas de caminhão no Brasil, identificamos uma convergência muito interessante.

Os dados internacionais da IRU apontam para: escassez mundial de motoristas; envelhecimento da categoria; pouca participação feminina; infraestrutura insuficiente; muito tempo longe da família e busca por melhor qualidade de vida.

Na pesquisa nacional da CNT foram identificadas as seguintes características: falta de renovação da mão de obra; perfil etário elevado; necessidade de ampliar diversidade; problemas com pontos de parada inadequados; preferência por descanso em casa e não na estrada, e melhores condições de trabalho.

O levantamento feito pela CNTTT trouxe outras informações relevantes do cenário nacional: dificuldade de atrair novos profissionais; predominância de profissionais experientes; problemas operacionais e de descanso; impacto da jornada na vida familiar e social; necessidade de saúde e valorização profissional.

12. O futuro exige uma agenda construída em conjunto

Talvez a principal mensagem extraída das pesquisas seja a de que os maiores desafios do Transporte Rodoviário de Cargas não pertencem exclusivamente ao setor patronal nem ao setor profissional.

Eles pertencem ao próprio País, pois valorizar o motorista profissional significa investir na eficiência logística, na competitividade das empresas brasileiras e no fortalecimento da economia nacional.

Isso exige uma agenda permanente de cooperação, focada nos investimentos em infraestrutura; ampliação da rede de pontos de parada e descanso; redução do tempo de espera para carga e descarga; programas de formação e qualificação profissional; incentivos ao ingresso de jovens na atividade; estímulo à participação feminina no transporte rodoviário; melhoria das condições de segurança e saúde ocupacional, e aperfeiçoamento contínuo da legislação a partir de dados concretos.

Todas essas medidas caminham na mesma direção.

13. Conclusão

As pesquisas realizadas pelas entidades representativas do setor demonstram que empregadores e trabalhadores podem possuir posições distintas quanto às soluções legislativas para determinados temas. Entretanto, quando se analisam os principais desafios enfrentados pelo transporte rodoviário de cargas, verifica-se uma expressiva convergência de diagnósticos.

Ambas evidenciam uma profissão que enfrenta dificuldades para atrair novos profissionais, convive com limitações de infraestrutura, elevados tempos improdutivos, longos períodos de afastamento familiar e crescente necessidade de valorização do motorista profissional.

Com respaldo em evidências nacionais e internacionais, podemos afirmar que os desafios enfrentados pelo motorista profissional brasileiro não são isolados, mas refletem uma realidade observada em diversos países.

Esse cenário reforça que o futuro do transporte rodoviário de cargas não depende apenas da evolução da legislação ou da interpretação dos tribunais. Depende, sobretudo, da capacidade de transformar esse diagnóstico comum em ações concretas que tornem a profissão mais atrativa, mais valorizada e mais sustentável.

O motorista profissional continua sendo o principal elo da logística brasileira. Valorizar esse profissional significa fortalecer toda a cadeia produtiva, aumentar a competitividade das empresas, melhorar as condições de trabalho e contribuir para o desenvolvimento econômico do País.

As duas pesquisas oferecem uma oportunidade rara: demonstram que, apesar das naturais diferenças de perspectivas entre os diversos atores do setor, existe um amplo consenso quanto aos problemas que precisam ser enfrentados.

Isso reforça a necessidade de soluções estruturais, construídas de forma conjunta por empresas, trabalhadores, embarcadores e Poder Público, para garantir a sustentabilidade do Transporte Rodoviário de Cargas. 

O grande desafio, agora, consiste em transformar essa convergência de diagnósticos em uma agenda permanente de cooperação entre empresas, trabalhadores, entidades representativas e Poder Público, capaz de construir soluções equilibradas para um dos setores mais importantes da economia nacional.

Tags: NTC&Logística

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